Minha história com a Várzea
Eu vivia no mundo das drogas, perdido e desencaminhado na Crackolândia de Anta Gorda, minha cidade natal. Meus amigos eram aviõezinhos, meus irmãos falcões, meus pais viciados e minhas avós tricotavam no quarto contíguo pra sustentar o consumo de crack da nossa família.
Um dia passei por um cartaz da campanha Crack Nem Pensar veiculada pela mídia televisiva mais confiável do Rio Grande do Sul e vi ao lado dele um pequeno adesivo escrito “jezuis ja vorto e ta na na varsia…”. Parei alguns minutos tentando decifrar o bilhete enquanto o fogo queimava o aerolito metafísico do gênese transcendental ontológico, ou seja, meu crack. O que seria varsia, pra que isso servia e em quanto tempo queimaria era o que me perguntava… até cortar o efeito da pedra e aí meu amigo, haja coração, eu só queria mais pedra e mais pedra e mais crack e mais pedra e fazia do meu corpo uma experiência química que a física não permite. Esqueci o bilhete e minhas ponderações.
Outro dia encontrei na rua o amigo do bisavô do meu vô seu Orlando Paranhos junto de um ilustre desconhecido e, como se a Revelação profética do shahâda flutuasse ao meu redor (embora fosse a fumaça da pedra), uma luz emanada da Caaba flexionou o lobo posterior direito do meu cérebro aludindo-me à reminiscência do bilhete cabalístico ao lado do cartaz da campanha Crack Nem Pensar. Achaquei Orlando Paranhos por dois minutos faturando seis reais do velho pra minha sopinha de pedra “pelos velhissississímos tempos” onde, segundo ele (e seu amigo João Trajado) “o futebol era aquela coisa alegre, descompromissada, palco de craques como Edu, aquele mesmo, irmão do Zico (melhor que ele), ponta esquerda do inesquecível América de 66 que também tinha Chiclete; Paulinho, Pezão; Bola, Alfinete; Zé Tirica, Rui Escova, Pirulito e Zagallo…”.
Pra cortar o falatório do seu Paranhos que agora lembrava o Bangu de 43, perguntei se por acaso “varsia” não era uma palavra do nosso português arcaico dos tempos da corte de D. João. Ele não soube responder e perguntou-me porque o inquiria a respeito, quando expliquei a história do adesivo. Eis que o ilustre desconhecido ao seu lado, que discutia asperamente sobre restrições orçamentárias quanto ao novo catálogo da Hermes com sua possivelmente namorada Jussylédna, me olhou estupefato: “Imtaum vussê vil meo biliéti fasenu popragramda da Varsia?”. Respondi que, provavelmente, sim. Seu nome era Denílson, que percebi ser um estagiário com potencial. Perguntei-o sobre o que aquilo se tratava enquanto ouvia Jussylédna gritar no celular “ieu keru perfumih ‘Iscola’ da Carla Peris i vô cunprá!!!!” ao que ele me respondeu se tratar da Várzea, níusleter da Trivela, sobre moda, comportamento, atitude, ciclo menstrual e futebol. Interessei-me. Dei boa tarde a seu Paranhos que agora lembrava o Sertãozinho de 29 que “se não fosse a quebra da bolsa seria o Real Madrid brasileiro, meu jovem” e me despedi do Denílson e também da Jussylédna que agora sambava no 3G pro estagiário com potencial.
Esqueci até da pedra e fui correndo pra casa saber o que era essa tal de Várzea. Foi amor à primeira vista. Meu irmão veio puçucar pedra de mim e também parou um minuto pra ver o que eu tava fazendo. Foi hipnotizado. E aos poucos, todos da minha casa iam ao meu quarto e permaneciam estáticos como aquele episódio do choque do Chaves ou a Uvaiãiãiãiã Elétrica. A Várzea livrou minha família das drogas. Hoje, somos uma família correta e feliz, livre das drogas. Só meu pai ainda bate na minha mãe, minha irmã se prostitui e minha vó vive em regime escravocrata no porão da casa tricotando pra sustentar a família. Mas crack, nem pensar.
Esta é minha história com a Várzea. Ou não.
Roberto, Anta Gorda.